Ângela - Azores - 18
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Houve dias em que pensei já não gostar de ti. Esqueci-me do que gostavas, ao que cheiravas, e das mil e uma expressões que a tua cara faz inconscientemente sempre que se cruza comigo em algum lado. Eu conheço-te melhor que ninguém, e muitos foram os dias em que vi vídeos antigos para me forçar a não me esquecer da tua voz. Não sei porque o fazia, mas houve sempre uma parte de mim, que guardava uma parte do dia, para me lembrar do que um dia fomos para não cair no comum erro de um dia, vir a odiar alguém que um dia amei. Fosse quem fosse a pessoa que tinha ao lado, ou as promessas falsas que deitei da boca para fora, não passou um dia, que não olhasse para uma fotografia nossa e me tentasse lembrar onde deixei o riso histérico que só tive nos dias, que passei contigo. As pessoas moldam-se ás situações mais adversas, e a nossa personalidade não se constrói, reconstrói-se sempre que temos que aprender a andar sem moletas antigas.
Cresceu dentro de mim uma vontade enorme de te odiar, e dizer a toda a gente aquilo que me passava a mil pela cabeça. Não o fiz. Em vez disso pintei o cabelo, mudei o guarda-roupa e o meu quarto, mantive sempre uma foto tua dentro do meu baú de maquilhagens, para que visses todos os dias quando saía de casa aquilo que tinhas perdido.
Levei-te todos os dias dentro de mim, numa parte escondida que acredito todos termos, onde guardamos os nossos piores segredos e maiores quedas, que nos possibilitam voltar a sorrir todos os dias por os motivos mais banais.
Sorri muito durante muitos meses, mas poucas vezes me senti feliz. Sou uma romântica incurável, e mesmo assim tentei acreditar na lenga-lenga que os nossos avós nos contam.
Que o amor se constrói, que com o tempo podemos vir a amar alguém por quem só sentimos um carinho especial. Tentei apaixonar-me por um rapaz. Dos piores erros da minha vida, que todas cometemos quando queremos interiorizar que o nosso coração sarou em tempo recorde.
Quando ele sorria de maneira diferente, me respondia fora do tom da tua voz ou me dizia qualquer coisa que puxasse mais o lado sentimental, fechava-me a sete chaves,o teu sorriso ocupava-me os olhos e por poucos segundos deixava de ver. Compreendi que nunca o iria amar quando um dia o apanhei a olhar para mim, e me sorriu. O mundo caiu-me aos pés e compreendi o grande erro que estava a fazer, e em segundos o desejo de me voltar a apaixonar substitui-se por um nojo profundo que encontrei na ausência de ti na minha vida. Eu sabia o politicamente correcto.
Há sempre um bom homem nas nossas vidas, que deixamos ir embora por um outro que talvez não vá perguntar-nos tantas vezes por dia “Estás bem?”; mas eu queria alguém que não me perguntasse por nada. Odeio que me perguntem o quer que seja. E aos poucos comecei a compreender que talvez não te odiasse. Talvez odiasse mais o facto de saber que nem tão cedo iria voltar-me a sentir à vontade com outra pessoa, ou que teria que continuar a encolher a barriga cada vez que passasse menos vestida ao pé de alguém, ou até que por mais imperfeito que fosses, não faria sentido seres de outra maneira.
Eu nunca te disse que já disse a muita gente que já não te amava, que tínhamos seguido caminhos diferentes porque éramos duas pessoas opostas, ou que eras do tipo de namorado que não valia a pena esperar. Menti. As mulheres mentem metade do tempo sobre os homens que marcam a vida delas, porque por vezes acreditar nas nossas próprias mentiras é a única maneira de seguir em frente.
Aprendi a mentir quando te conheci. Quando te dizia que não dependia do teu calor para nada, ou que sozinha ou acompanhada eu era a mesma pessoa. Definitivamente somos todos sempre as mesmas pessoas, as nossas almas é que mudam quando perdemos parte delas.
Nunca te disse que construí parte da minha contigo ao lado.
Partes do meu braço, das minhas mãos, dos meus olhos e corpo, cantam músicas nossas, reflectem cores nossas e lembram-se de coisas nossas.
O meu corpo reflecte-nos a nós, e disso mais ninguém se pode gabar.
Nunca dizemos ás pessoas o quanto já lhes mentimos e o quanto gostamos delas, mas ás vezes “vomitar” a nossa parte mais feia, mentirosa e fria, é a melhor declaração de amor que se pode fazer.
Declarem-se contando mentiras pregadas. Já chega o quanto nos mentimos a nós mesmos, todos os dias.
Se possível, acreditem naquela voz interior que vos diz que as coisas não foram feitas para resultar. Nós mulheres, pintamos lindas fotografias em cima de grandes borrões, para que à nossa volta, tenham a imagem da nossa relação que gostaríamos que realmente acontecesse. Somos mentirosas por amor à camisola, seja qual for a razão.
Há homens excepcionais por aí, e senão for brevemente que nos darão o prazer de sermos convidadas para um café ou até um Mojito, há paisagens fantásticas e outras pessoas mentirosas por conhecer.
Só nunca se deixem ficar no sítio onde estão.”

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